Às vezes, sentados nos nossos sofás, no quentinho das nossas casas, nem nos apercebemos da vida difícil que muitas pessoas levam. Na quarta-feira passada, decidi ir ao Colombo com a minha mãe e regressámos a casa de comboio, por volta das 21.30. Pensar-se-ia (e pensa-se) que, a essa hora, a frequência deste meio de transporte já não é a melhor, mas o que vimos foram pessoas que regressavam dos trabalhos, cansadas, abatidas e sonolentas... A minha mãe tem muita razão quando diz que há muitos que se matam a trabalhar para outros não fazerem nada. Somos um país de desequilíbrios e nem sequer sabemos recompensar quem merece.
Na minha carruagem, para além de trabalhadores, vinha também, sozinho, um menino com cerca de 12 anos. Sem ligar a ninguém, lá vinha ele com o seu material escolar e um saco carregado de roupa, que, segundo me pareceu, devia ser um equipamento. De repente, tirou uma sandes da mochila e comeu-a como se nada fosse. Na opinião da minha mãe, devia ser o seu jantar, mas eu, como optimista, gosto de pensar que não... Enquanto comia, entrou uma senhora que se sentou junto dele e tanto o olhou que ele, na sua simplicidade, perguntou se ela se queria sentar no banco ao seu lado (onde estava o seu saco com roupa). Ela recusou a generosa oferta, afinal, estava bem acomodada e só o olhava porque achava que tudo devia ir dentro da mochila, por precaução. Para que não perdesse nada, para que ninguém se metesse com ele... Não cabia na mochila, desculpava-se ele, por mais esforço que fizesse para amachucar tudo. E a viagem continuava... bem como a sandes dele. Eis que então a mesma senhora tira da mala um sumo e lhe oferece. O menino, por vergonha ou por não querer mesmo, recusou, mas a simplicidade do gesto e a generosidade da senhora são coisas que, hoje em dia, já não se vêem muito. À saída dele, estes dois estranhos despediram-se como se se conhecessem há anos. E, claro, o instinto maternal dela falou mais alto. "Agora tem cuidado, ouviste?", disse-lhe.
Não gosto de falar de brancos, amarelos, negros, mas, neste caso, acho que isso tem de ser mencionado. Hoje em dia, temos tendência para só ver o lado mau desta última comunidade e esquecemo-nos de que há bons e maus em qualquer lado. Naquela carruagem, a maioria das pessoas eram negras, sim, mas nem por isso o ambiente era preocupante e, pessoalmente, não sei se veria alguém branco a ter este gesto de afecto/generosidade para com outro individuo. Foi bonito e, acima de tudo, marcou-me.
Escrito por:
Cristina
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